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Dentro da casa Oikos: Histórias que inspiram mudança – Cristina Peixinho

Na Oikos, cada pessoa é essencial na construção de um mundo mais justo, sustentável e solidário. Na rúbrica “Dentro da Casa Oikos”, damos voz às histórias, motivações e vivências de quem se dedica à missão da Organização.

Partilhamos a inspiradora trajetória de Cristina Peixinho, coordenadora de Cidadania Global, cuja ligação à Oikos começou praticamente desde a sua fundação e que, ao longo de décadas, tem sido uma força ativa na educação para o desenvolvimento e na promoção do pensamento crítico entre os mais jovens.

1. Há quanto tempo está na Oikos? Como começou a sua história e como era a Oikos nessa altura?

Estou na Oikos praticamente desde a sua fundação.

Em 1988, era uma jovem professora, cheia de energia e de vontade de fazer mais, de ir além da sala de aula. No fundo, cheia de vontade de mudar o mundo – pode soar muito ambicioso, exagerado, mas era mesmo isso que sentia. Havia em mim uma inquietação, uma necessidade de contribuir para algo maior, de ter um impacto real na vida das pessoas para além do meu trabalho, de que tanto gosto e a que me entrego até hoje com a mesma motivação, enquanto professora de Geografia.

A Oikos surgiu assim de forma quase inesperada. Não foi um plano desenhado durante anos, foi antes o encontro com pessoas com a mesma vontade de agir, de intervir, de transformar… Este encontro teve lugar numa ação de formação sobre Educação para o Desenvolvimento, que dava os seus primeiros passos em Portugal, promovida pelo Ministério da Educação, onde a Oikos esteve presente, apresentando-se e divulgando o seu propósito.

Era um tempo de muita energia, de ideias a fervilhar e de uma enorme dose de idealismo. Tínhamos poucos recursos, pouca experiência profissional e institucional, mas tínhamos convicção – e isso fazia toda a diferença. Estava ali o caminho.

Depois desta formação, passadas poucas semanas, veio um convite para integrar a Oikos. Não me aconselhei com ninguém, contrariamente ao meu hábito, e fui ao encontro da Oikos na Av. Visconde Valmor em Lisboa e, numa conversa muito familiar e clara, disse:  SIM, quero colaborar com a Oikos, SIM, quero ajudar a mudar o mundo. E assim fiz.

Nessa altura, a Oikos era pequena, muito informal, quase familiar – e refiro-me a uma família nuclear – na forma de trabalhar. Construía-se tudo com todos, naquele 4º andar da Av. Visconde Valmor: projetos, parcerias, metodologias… Havia um forte espírito de missão e uma grande proximidade entre colaboradores, à época muito poucos. Cada conquista era celebrada como uma vitória coletiva.

Mas o que começou de forma inesperada acabou por se tornar um compromisso de vida. A Oikos veio para ficar – na minha trajetória pessoal e no panorama da cooperação e do desenvolvimento. Cresceu, consolidou-se, profissionalizou-se, mantendo inalterável aquilo que esteve na sua origem: a vontade genuína de contribuir para um mundo mais justo e sustentável.

2. Ao longo destes anos, o que mudou mais na Oikos? E o que se mantém igual?

Ao longo destes anos, o que mais mudou na Oikos foi a sua dimensão, a diversidade de projetos e a presença internacional. A Oikos tem vindo a responder cada vez mais a novos desafios sociais e ambientais, com um alcance e impacto cada vez maiores.

O que permanece igual é a sua essência: a missão, os valores e o compromisso com a justiça social e a sustentabilidade. Mas algo ainda mais especial permanece inalterável na Oikos: o ambiente humano e próximo, a forma calorosa como se acolhe quem chega, a entreajuda genuína e a amizade que une colegas e dá sentido ao trabalho de todos os dias.


3. Qual tem sido o foco principal do seu trabalho?

Ao longo do meu percurso na Oikos, o foco central do meu trabalho tem sido a Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global. Dediquei-me desde o início e até hoje à (in)formação e sensibilização de jovens, em contextos de educação formal e não formal, tentando contribuir para uma compreensão crítica dos desafios e das interdependências globais.

Acredito genuinamente no potencial transformador que existe nessa fase da vida, pelo que, criar espaços onde os jovens possam questionar, refletir, debater, ganhar consciência do mundo à sua volta e perceber que a sua voz pode fazer a diferença é algo que continua a motivar-me profundamente.

O meu objetivo foi desde sempre contribuir para a criação de processos educativos que vão além da transmissão de conteúdos, incentivando o pensamento crítico, a participação ativa e o sentido de responsabilidade social. É minha convicção firme que a educação deve capacitar os jovens para se reconhecerem como agentes de mudança, conscientes do seu papel na construção de sociedades mais justas e sustentáveis, sendo por isso a informação, a consciencialização e sensibilização fundamentais para uma motivação para ação.

Em síntese, o meu percurso tem sido orientado pela convicção de que a educação é uma ferramenta transformadora, sobretudo quando promove consciência crítica, participação e compromisso coletivo.

4. Há algum momento, projeto ou episódio que guarde com especial significado?

Ao longo de tantos anos na Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, vivi muitos momentos marcantes, uns de grande alegria, outros nem tanto, uns de entusiasmo, outros de desânimo…  como é habitual em qualquer atividade.   Mas há um pequeno episódio que guardo com especial carinho.

Foi numa sexta-feira ao final da tarde, há mais de 20 anos. Disseram-me que estava um rapaz com o pai à minha espera para falarem comigo. Não tinha nada agendado e, confesso, fiquei curiosa. Fui ao encontro deles e percebi que o rapaz era aluno de uma escola onde eu tinha estado na segunda-feira anterior a dinamizar uma sessão de sensibilização sobre desenvolvimento e cooperação.

O pai explicou-me que o filho tinha chegado a casa muito entusiasmado com a Oikos e com os temas que tínhamos abordado. Falou sobre a sessão, sobre a importância da cooperação e da solidariedade, e acabou por desafiar o pai a ir conhecer a organização que tinha visitado a sua escola. Depois das aulas, fizeram questão de passar pela nossa sede, ainda na Rua de Santiago, ao Castelo de São Jorge, para nos conhecerem.

Fiquei feliz e até um pouco emocionada. Naquele momento senti que o nosso trabalho fazia a diferença. Percebi que a mensagem tinha sido não só ouvida, mas sentida – ao ponto de mobilizar um jovem a continuar a refletir sobre o tema e a envolver a sua própria família. Foi um daqueles momentos simples, mas poderosos, que reforçam a convicção de que vale a pena continuar.

5. Pode partilhar um pouco mais sobre si? Alguma curiosidade que possamos conhecer?

Ser mãe foi a grande mudança da minha vida. Os meus filhos são o mais importante para mim e deram-me uma nova perspetiva sobre prioridades e responsabilidade. Tornaram-me mais paciente e mais focada naquilo que realmente importa. Os filhos são um amor para toda a vida.

6. Se tivesse que descrever a Oikos numa palavra (ou numa imagem), qual seria?

Vejo sempre uma casa grande onde cabem todos. É uma imagem que faz jus ao seu nome – Oikos a palavra grega que significa casa.