“Eram cerca das seis da tarde e estava em casa com a minha família — a minha mulher e a nossa filha bebé — no terceiro piso de um apartamento em Los Palos Grandes, no município de Chacao, em Caracas.
De repente, recebi um alerta de terramoto no telemóvel. Era um som alto e estranho; cheguei a pensar que fosse um vírus. Talvez dez segundos depois, o chão começou a tremer.
Já tínhamos vivido pequenos sismos em Portugal e, no primeiro momento, não houve grande preocupação. Mas a intensidade foi aumentando rapidamente. A dada altura, a questão já não era perceber que estava a acontecer um terramoto: era saber se o edifício ia cair.
O terramoto durou quase dois minutos. Parecia uma turbulência muito forte de avião: paredes a abanar, armários a cair, vidros a partir. Nesses momentos, a capacidade de reação é mínima. A intensidade é tal que praticamente não nos conseguimos mover.
Quando tudo acalmou, descemos imediatamente as escadas. Encontrámos vizinhos em pânico, portas escancaradas — incluindo a nossa —, canalizações rebentadas. Ficámos sem comunicações, sem qualquer informação sobre o que se passava na cidade. Mas bastava ouvir as sirenes das ambulâncias e dos bombeiros para perceber que o caos podia ser enorme.
Na Venezuela não existe a preparação que encontramos em países como o Japão ou os Estados Unidos, habituados a sismos frequentes. Um terramoto desta dimensão é o equivalente ao que seria acontecer hoje em Lisboa: poucas pessoas sabem realmente como reagir.
A primeira noite foi passada dentro do carro, numa zona afastada de edifícios e postes. Na segunda noite dormimos no rés-do-chão do prédio, com uma mochila de emergência preparada, dinheiro, documentos e tudo o que era necessário para a bebé, caso fosse preciso sair rapidamente.
Entretanto começaram a chegar notícias de La Guaira, onde a destruição foi devastadora. Talvez quem estivesse fora da Venezuela tenha percebido primeiro a verdadeira dimensão da tragédia através dos meios de comunicação internacionais.
Nos dias seguintes, no município de Chacao montaram-se pontos de distribuição de água e alimentos, mobilizaram-se lojas e restaurantes para recolha de donativos e iniciaram-se avaliações à segurança dos edifícios, verificando estruturas e possíveis fugas de gás.
Foi — e continua a ser — uma experiência profundamente traumática. Durante aqueles dois minutos tememos pela nossa própria vida. Tivemos a sorte de sobreviver, mas isso não diminui o sofrimento de milhares de famílias que perderam familiares, casas, bairros inteiros e tudo aquilo que tinham.
Os desastres naturais não têm fronteiras nem escolhem sociedades por ideologia. Aconteceu na Venezuela, mas podia acontecer amanhã em Portugal. Por isso, a resposta também não pode ter fronteiras nem ideologias: tem de ser humanitária.
Para Portugal, esta responsabilidade é ainda mais evidente. Houve um tempo em que a Venezuela acolheu dezenas de milhares de portugueses que aqui construíram as suas vidas quando o nosso país atravessava grandes dificuldades. Como podemos agora ficar indiferentes quando é a Venezuela que precisa de ajuda? E quando digo Portugal, digo também a Europa e todos os países que têm capacidade para apoiar.
Há sempre duas fases numa tragédia desta dimensão. A primeira é a emergência: salvar vidas, garantir água, alimentação, abrigo e cuidados de saúde. É uma resposta que exige rapidez e coordenação, porque a dimensão das necessidades só se conhece verdadeiramente depois de a tragédia acontecer.
A segunda fase é muito mais longa. Limpar os escombros demorará anos. Reconstruir infraestruturas, comunidades e a vida das pessoas demorará ainda mais. E haverá também uma reconstrução invisível: a recuperação psicológica de quem perdeu familiares, casa e tudo o que conhecia.
Em Portugal recebemos apoio internacional em momentos difíceis, como nos grandes incêndios ou em recentes catástrofes naturais. Aqui, estamos perante uma tragédia humana incomparavelmente maior. É por isso que o apoio é tão importante — agora, na resposta de emergência, mas também daqui a meses, quando este assunto deixar de ocupar as notícias.
Porque esta ajuda não é para um país. É para famílias, vizinhos, amigos. É para pessoas que, um dia, poderemos ser nós.”
Nuno Mesquita
Gestor de Projetos da Oikos, atualmente sediado na Venezuela por motivos familiares.
A Oikos está a implementar uma resposta humanitária de emergência para apoiar cerca de 3.500 pessoas (750 famílias) nos estados de La Guaira e Distrito Capital, contribuindo para restabelecer condições mínimas de segurança, saúde e dignidade. SAIBA MAIS E APOIE-NOS.
