Saldos: o preço que não vem na etiqueta
A época de saldos é, tradicionalmente, um momento de grande apelo ao consumo de vestuário. Montras atrativas e preços reduzidos tornam difícil resistir a uma “boa promoção”. No entanto, aquilo que é aparentemente vantajoso para a carteira nem sempre é compatível com a proteção do planeta e com o respeito pelos direitos humanos.
Por detrás do preço de uma peça de roupa existem custos invisíveis que não constam na etiqueta: milhões de litros de água consumidos, elevadas emissões de carbono libertadas e impactos sociais profundos ao longo da cadeia de produção. Estes custos ambientais e sociais raramente entram na equação no momento da compra — mas são pagos por todos nós.
Fast fashion: um modelo insustentável
O fast fashion assenta numa produção acelerada de roupa de baixo custo, orientada por tendências de curta duração. Este modelo incentiva a compra frequente e descartável, conduzindo a níveis alarmantes de desperdício têxtil.
Entre 2000 e 2024, a produção têxtil global mais do que duplicou, passando de 58 para 132 milhões de toneladas. Atualmente, o poliéster — um derivado do plástico — representa cerca de 59% do total das fibras produzidas. Esta expansão tem sido acompanhada por uma redução da qualidade das peças, maior consumo de energia e uma utilização intensiva de recursos naturais, sem a necessária preocupação com a sustentabilidade.
Um impacto ambiental e social alarmante
A indústria têxtil está entre as dez indústrias mais poluentes do mundo. É responsável por cerca de 20% do consumo global de água e por aproximadamente 10% das emissões globais de CO₂. As Nações Unidas classificam o estado atual da indústria da moda como uma verdadeira “emergência ambiental e social”.
Na União Europeia, o consumo de têxteis gera, em média, 355 kg de emissões de CO₂ por pessoa, por ano. Cada cidadão europeu consome cerca de 26 kg de produtos têxteis anualmente e descarta aproximadamente 11 kg, contribuindo para um volume crescente de resíduos que acabam em aterros ou são incinerados.
Globalmente, estima-se que mais de metade das 100 mil milhões de peças de vestuário produzidas todos os anos sejam descartadas no prazo de um ano.
Para além do impacto ambiental, este modelo de produção linear tem consequências graves para milhões de trabalhadores, frequentemente sujeitos a condições laborais precárias, salários baixos e exposição a substâncias químicas perigosas que afetam a saúde humana e os ecossistemas.
Que respostas estão a ser dadas na Europa?
A União Europeia tem vindo a reforçar o quadro regulamentar para reduzir o impacto ambiental da indústria da moda e cumprir os objetivos climáticos para 2030 e 2050. Iniciativas como o Regulamento de Ecodesign para Produtos Sustentáveis exigem que os têxteis sejam mais duráveis, reparáveis e recicláveis, proíbem a destruição de excedentes e introduzem a recolha seletiva obrigatória. Está também prevista a implementação de um “passaporte digital” que disponibilize informação sobre materiais, origem e desempenho ambiental dos produtos.
O papel de cada pessoa na mudança
Embora as políticas públicas sejam fundamentais, a transição para um sistema têxtil mais justo e sustentável começa também nas escolhas individuais. Fechar o ciclo através de uma economia circular — baseada na reutilização, reparação e reciclagem — é hoje imperativo.
Algumas ações prioritárias incluem:
-
usar a roupa de forma mais responsável, prolongando a sua vida útil;
-
apoiar o mercado de segunda mão e marcas de slow fashion;
-
evitar compras por impulso;
-
exigir maior transparência e responsabilidade às marcas;
-
informar-se sobre a cadeia de produção e partilhar conhecimento com outras pessoas.
Repensar os saldos, repensar o consumo
Podemos pagar 10€ por uma camisola, mas o verdadeiro custo — ambiental e social — é suportado pelo planeta e por comunidades vulneráveis. A consciencialização sobre estes custos invisíveis, especialmente em períodos de consumo intensivo como os saldos, é uma ferramenta poderosa para promover mudanças reais.
A Oikos acredita que um consumo mais consciente é essencial para a construção de um futuro mais justo e sustentável. Faça parte desta mudança: repense as suas compras e contribua para um sistema que respeite as pessoas e o planeta.


